Clovis Marques – Opinião & Notícia

O Quarteto Radamés Gnattali é um dos mais ativos e inovadores no panorama brasileiro. O conjunto propôs a quatro compositores um passeio por estações ferroviárias e bairros do Rio de Janeiro, na junção das cordas do quarteto com o violão – a cargo de Zé Paulo Becker – e da levada popular de calçadas e ruas com uma “complexificação” das formas próprias do “erudito”. A convergência não me atrai em princípio; ouvi o disco com mais insistência que outros, “para me convencer”, e acabei caindo na rede. Começamos (na Estação Mangueira de Maurício Carrilho) e concluímos (na Estação Central do Brasil de Sergio Assad) com citações do “Patrão, o trem atrasou, por isto estou chegando agora…”, que também parece perpassar pelo menos mais um momento da série (o movimento “Farra na Quinta” da Estação Leopoldina de Paulo Aragão). Estas três peças são as mais alegres, brincalhonas e melodiosas, ao passo que na Estação Madureira Jayme Vignoli parece mais preocupado em “compor clássico”. Muitos títulos conhecidos do samba e outros ritmos urbanos cariocas são citados e/ou invocados aqui e ali. Carrilho é o mais natural na levada “popular”, Assad me soa como o mais imaginoso e feliz na confluência de estilos e formas – seria bom se sua Central do Brasil passasse a frequentar as salas de concerto. Quando a música requebra e canta, irresistível, o Quarteto Radamés Gnattali mostra por que é um esteio da vida musical brasileira no momento.